16 agosto 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 5: Porque Eu Amo Vitória - ES

Tia Verônica voltou pra casa na quinta, apenas teria que ficar muito tempo de repouso por ordens médicas. Até segunda, quando eu e Devon pegamos o avião para Vitória, a polícia ainda não tinha nada. Tia Verônica não tinha visto o rosto de quem a atacara, isso complicava as coisas.

Sammuel não apareceu depois de terça. Eu estranhei muuuuuito isso. Mas fiquei principalmente com raiva pois não poderia me vingar! Filho da mãe!

Devon não me falou quem era a garota com quem ele estava saindo. Ou seja... Eu não vou aprovar o namoro e provavelmente eu iria praticar algum ato terrorista contra a garota.



Bem...

Já vou me preparando pra quando voltar... Tenho umas ideias bem du mal pra atormentá-la quando a conhecer...


Despertador viajou conosco numa gaiola para cães – me dava uma dó danada ver ele ali, com aquela cara de cachorro abandonado. Eu queria soltá-lo logo, mas sabia que só poderia fazê-lo quando chegássemos ao carro de vovó.

Vovó nos pegou no aeroporto, como sempre. Os cabelos cacheados estavam presos num coque frouxo com uma caneta – ela sempre perdia os pali-tos – e usava um vestido reto e branco, até as canelas, com uma faixa de cou-ro na cintura, usando rasteirinhas, com os óculos de sol de meia-armação e uma enorme bolsa de palha. Ela costumava vestir-se assim, de um jeito sim-ples, mas elegante, de algum jeito.

Eu corri para abraçá-la, pegando-a desprevenida, mas ela logo retribuiu o abraço.

− Ei, deixa um pouco da vovó pra mim! – Devon caçoou, aproximando-se e envolvendo nós duas em seu abraço de urso, apoiando a bochecha no cabelo de vovó. Nós duas rimos, e Devon nos acompanhou logo em seguida.

Nos afastamos um pouco, e olhei vovó atentamente. Eu era uns dois centímetros mais alta que ela. Seu rosto tinha mais rugas de expressão do que na última vez que nos vimos, mas ela continuava tendo o rosto estranhamente mais jovial que de muitas mulheres mais novas ela. Talvez fosse porque ela sempre tinha carinho no olhar, e estar sempre com um sorriso que fazia você se sentir capaz de fazer qualquer coisa! Bem, eu me sentia assim quase sempre quando ela sorria!

− Vamos. Despertador deve estar cansado de ficar nessa gaiola! – ela disse, rindo, enquanto Devon empurrava o carrinho com nossas malas – apesar de que elas não eram assim, tão grandes... Mas ninguém queria carregar a gaiola de Despertador... Esse cachorro pesa uma tonelada! Não entendo como, ele é tão magro...

Eu fui aos pulinhos para a saída do aeroporto, não muito longe de onde vovó nos esperava. Era uma cena engraçada: eu, usando uma saia rodada curta e xadrezada de preto e branco, com uma leging branca, coturnos pretos, uma camisa regata branca e algo que um dia foi um sobretudo xadrezado de vermelho e preto – “foi” porque eu arranquei as mangas compridas, deixando onde era a costura com uma aparência desfiada – saltitando no meio do aero-porto. E ter aquela altura toda e aquela juba para todas as direções ajudou mais ainda para que eu me destacasse...

Devon bateu com a mão na cara. Eu diria que ele estava pensando “Pelo amor de tudo que é sagrado, eu não conheço essa criatura...” Isso me fez rir muito. Era bom provocar o Devon de vez em quando! Vingança pelas pegadinhas! Hohohoho!

Vovó ria suavemente. Parecia não se importar da neta ser pirada. Que bom! Se ELA se importasse, eu ia pirar de vez! – se é que já não pirei...

O carro de vovó – um jipe vermelho que eu a-m-o – estava parado perto da entrada, o que facilitou muito. Soltamos Despertador, vovó acariciou um pouco sua cabeça, antes que ele pulasse na parte traseira e se ajeitasse onde ele sabia ser reservado pra ele. Jogamos as duas malas atrás, onde me ajeitei entre os bancos, e Devon e vovó se sentaram.


Durante o caminho para a casa de vovó, na periferia de Vitória, ela nos contou como estava e que aquela cidade era muito quieta sem a gente.

− Então porque você não volta pra São Paulo?! – perguntei, com uma cara emburrada de criança. Sério! Eu SEMPRE insisto pra ela voltar, mas ela não quer! Que droga!

Vovó riu, mas não respondeu. Estranhei isso, raramente ela não respondia quando perguntávamos algo – mesmo sobre ela voltar ou não... Logo ela mudou de assunto, já que seguiu um silêncio desconfortável enquanto esperávamos sua resposta.

− E então, como vão as coisas no colégio, LeavesEyes? – vovó pergun-tou, me olhando pelo retrovisor, sorrindo docemente.

Só que antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Devon respondeu por mim! Argh! Mano, por que você tem essa irritante mania de responder no meu lugar?!

− Ah, normal... Entrou um garoto novo essa semana na sala dela que ela tá super afim, e acho que ele também gosta dela... – Ele sorriu sacana, olhando para minha reação.

Eu me olhei no retrovisor, e meu rosto estava vermelho feito um tomate. Percebi que vovó estava levemente séria, e que tivera um tique nervoso: semi-cerrou o olho esquerdo de um jeito estranho.

Mas eu estava muito ocupada dando uma chave de braço no pescoço do meu irmão para ficar tão preocupada por causa daquilo...

− Qual o nome do garoto? – percebi que sua voz tremia levemente, ali-ás, Devon também percebeu. Parei a chave de braço e olhei para vovó, desis-tindo de tentar sufocar meu irmão. Eu não tinha tanta força assim.

− Sammuel. – respondi, semicerrando ambos os olhos, analisando-a.

− Ah, tá. – ela relaxou, e até riu bobamente por algo. Ergui uma sobrancelha, desconfiada, antes de olhar para Devon.

O olhar dele era algo entre incredulidade e confusão. Acho que ele esperava que vovó me desse uma bronca. Hohoho... O tiro saiu pela culatra.

De todo jeito, erguemos os ombros em sinal de descaso. Vovó estava estranha...


Chegamos na casa de vovó, de muro verde folha e portão branco. Do lado da casa, uma igreja protestante. Eu conhecia os pastores – que eles cha-mavam de cooperadores – eram pessoas legais. Ajudavam muita gente necessitada. Eu não falava com ninguém dali, mas eu via eles pela janela do quarto da frente, onde eu dormia nas férias. Pareciam pessoas muito boas. Eu gostava deles. Ah sim: e nada de mídia ou programa na TV. Isso fez eles ganharem o meu respeito.

Despertador passou pelo portão feito um foguete. Estava desesperado por algum lugar confortável, provavelmente. Subiu a escada estreita correndo, indo para o quarto onde eu ficava, na frente.

A casa de vovó tinha sala, cozinha, dois banheiros e três quartos, nada muito grande, mas do tamanho certo. Tudo muito aconchegante.

No meu quarto, uma cama de solteiro que cabia eu e Despertador tranquilamente e um baú para eu guardar minhas coisas. No de Devon, a mesma coisa. E no de vovó, a diferença era que a cama era de casal e ao invés de um baú, era uma cômoda. Na sala, tinha um sofá de três lugares de frente para a TV de 24, meio antiga, mas que pegava melhor que a lá de casa, com um Playstation 2 ligado nela. Mamãe não gosta de videogames, fala que são coisas que fazem as crianças esquecerem como se divertirem de verdade. Tanto que o PC lá de casa não é lá essas coisas – Por que vocês acham que eu ca-bulo pra ir na Lan House? Então, nós jogamos na casa de vovó! O aparelho de som de vovó é um treco ENORME, preto e com duas caixas de som. Potente o bicho, viu! Eu amo ouvir meus metals nele! Quase derrubo a casa!

− Stacy... – ouvi vovó chamar quando estávamos entrando.

− Que foi? – deixei a mala no chão e me virei para ela.

− Quando comprou esses brincos? – ela apontou para minhas orelhas, onde os brincos de esmeralda em forma de folhas estavam. Devon então olhou para minhas orelhas, ainda na porta de entrada, e fez cara feia, de trás de vovó, carregando a mala dele. Acho que ele não tinha percebido os brincos até aquele momento – depois de uma semana usando-os, que fique registrado! Isso é a prova de como ele se envolveu com alguma piriguete! E acho que ele pensa que ganhei os brincos do Sammuel.

− Bom... – e pela segunda vez nesse dia, Devon não me deixou responder uma pergunta de vovó!

− Acho que ela ganhou do amigo novo... – ele respondeu com um sorriso sacana e um olhar malicioso, embora eu percebesse um pouquinho de ciúmes na voz.

Foi a minha vez de fazer cara feia. Claro, minhas suspeitas foram confirmadas – ele de fato pensava que eu tinha ganhado os brincos do Sammuel. O problema... É que nem eu sei quem me deu esses brincos! É, eu não consegui descobrir ainda...

Vovó fez uma cara que eu não soube distinguir se ficaria no estado surpresa, brava ou o que raios que o parta fosse aquela cara dela, ficava oscilando! Decida-se!

− É mentira, vovó! Eu comprei semana passada com minhas economias! – mentiiiira... Minhas economias estão intocadas desde que comprei o box de Death Note... – O Devon está assim porque está com ciúmes do Sammuel... – foi a minha vez de dar um sorriso sacana, com direito a mão no queixo e sobrancelha levantada. – Está tão ocupado com alguma piriguete qualquer que nem percebeu que a irmã comprou um par de brincos novos... – balancei a mão como se aquilo não fosse nada. Vovó olhou de relance para Devon por cima do ombro, um olhar sério que ele retribuiu. – O que esse olhar significou? – perguntei com tom manhoso, colocando as mãos na cintura e fazendo cara de brava – o que deve ter dado um efeito parecido com o do Capitão Yamato quando quer dar um efeito terrorista no Naruto, mas só por causa do meu cabelo... Bizarro.

Mas o efeito foi só na aparência. Eles não se alteraram em nada. Eles estão de complô pra cima de mim! Estão lendo os pensamentos um do outro! Não é justo! Eu não consigo ler a mente dos outros!

− Que olhar, LeavesEyes? – A vovó, quando me chama assim, com esse tom de “Não se preocupe que vai ficar tudo bem” é porque tem coisa errada! A última vez que ela usou esse tom ela veio morar em Vitória e me deixou em São Paulo com a doida da minha mãe! É, faz tempo, mas o trauma ficou!

Olhei com cara de “A-hã, acredito”, mas como eu sabia que não adiantava perguntar nada, deixei de lado. Com esses dois, não adianta ficar insistindo... Ainda mais com vovó. Ela é formada em tortura – não literalmente, é aquela tortura que todo pai, mãe e avó sabe – e desconversassão e etc. Não adiantaria. Eu só gastaria saliva e descobriria sabe o que? Nada!

− Okay... – eu falei, com um tom meio magoado enquanto pegava minha mala do chão. Eu realmente estava um tanto magoada por eles não me contarem o que tinha se passado na cabeça deles. Caramba, eu já tenho quinze anos, não sou mais uma menininha! – Se não querem me falar nada, fiquem com seus segredinhos. – e subi a escada e fui para o meu quarto.

Eu tinha uma estranha sensação de que algo ia acontecer... Ou estava acontecendo, sei lá! Como se minha vida estivesse para mudar...


Meu quarto continuava do mesmo jeito. A janela ampla me deixava ver parte da cidade e as casas e ruas mais abaixo, além das pessoas andando pela rua, tranquilamente. A cama tinha uma fronha igual a de meu quarto em São Paulo – a mesma que estava no travesseiro que eu tinha destroçado.

Minha mãe me perguntou o que tinha acontecido, Despertador fizera ca-ra de “Pode me culpar, eu não ligo” mas eu não tive coragem e falei que ficara com raiva de uma pessoa no colégio: minhas orelhas ficaram enormes e vermelhas como as caixas de lápis de cor da Faber Castell...

Essas fronhas eram um par que comprei uns anos atrás e trouxe uma pra cá. O lençol era branco, comum. E o edredom, dobrado aos pés da cama, também era a minha cara! Era roxo cheio de desenhos indefinidos em tons de lilás, branco e preto. As tigelas de água e ração do meu vira-lata estavam num canto junto com o jornal esticado que ele sabia que devia usar. Em casa ele fazia isso na varanda. E sim, sou eu que limpo desde que o tenho. Sinceramente... Acho que sou a única na família que realmente se importa com Des-pertador...

Ele estava deitado na minha cama. Quando entrei, ele levantou a cabeça, olhou pra mim e latiu como quem diz “O local está seguro. Verifiquei antes de você chegar.” e isso me fez rir.

Acho que minha loucura está cada dia pior...

Arrumei minhas coisas no baú e peguei o Teorias e uma caneta azul-fluorescente – não sei se vocês perceberam, mas gosto de coisas coloridas de um jeito psicodélico... Tanto que as páginas de Teorias são cheias de cores diferentes, desde as fluorescentes até as que brilham no escuro. Fora os dese-nhos na beira das páginas.

Dei mostras de que ia deitar na cama, o que fez Despertador descer. Deitei onde ele estava antes – estava quentinho! – e ele deitou do meu lado, transmitindo mais calor para mim. Abri Teorias e comecei a escrever.


A louca chegou de novo! Uhu!

Vitória nunca mais será a mesma depois de eu chegar! “Na verdade ela nunca é a mesma, está sempre mudando” diria algum sábio do oriente. Mas pra mim ela continua exatamente igual. “Porque você não conhece todo mundo e nem a cidade inteira!” diria Sammuel, do jeito que ele tem falta de imaginação – peguei raiva desse ser depois da retaliação, e não quero mais vê-lo nem pintado de ouro. E a raiva só aumentou quando ele não apareceu pra eu me vingar! Ele que não me apareça quando as aulas voltarem!

E falando na criatura, começo a desconfiar que ele que me deu esses brincos – talvez por influência de Devon... Sabe, os de esmeralda que eu disse quinta passada depois que Tia Verônica voltou que a esmeralda devia ser mágica ou qualquer coisa assim, meio élfica... E se o Sammuel é um Elfo, ele teria acesso à isso! Duh!

Oh, não! Falei como a Thaíze fala quando quer me humilhar! Eu tenho que matar aquela patty antes que ela me contamine completamente! Stacy patty? Nem depois de morta!

Novo texto em produção: 1001 maneiras de matar uma patty e se descontaminar completamente. Depois desenvolvo-o com calma. Aí quando voltar pra São Paulo, coloco alguma maneira em processo de execução! Ela não perde por esperar! Hohohoho!

Mas quer saber, Teorias? Vovó sabe de algo sobre meu mano que eu não sei. Será que ela conhece a piriguete? SERÁ que meu irmão apresentou a piriguete pra vovó antes de EU, que MORO com ele, conhecê-la?!

Ok, seria difícil levando em conta a distância, mas não duvido de nada vindo desses dois!

Tá bem, eu sou a maior paranóica que existe por achar uma coisa dessas...

Mas vou te contar... Sinceramente, fiquei com medo de morrer hoje, Teorias... No avião, sabe.

Eu e Devon sentamos em fileiras diferentes... E de um lado meu, tinha uma mulher com cara de possuída do Exorcista – sério, até parecia que os o-lhos dela estavam meio vermelhos... E do outro, um homem com cara de psicó-tico! Ele me olhava de um jeito... Eu pensei que ele ia tirar um controle remoto de uma bomba do bolso e explodir tudo! Sim, além de cara de psicótico ele ti-nha cara de terrorista.

É... Estou ficando louca de vez, Teorias...


− Stacy... – era meu irmão na porta do quarto. Despertador levantou a cabeça e olhou para ele enquanto eu fechava o Teorias e olhava pro meu ma-no com cara de “Que que você quer?”, ainda meio irritada por causa do complô com vovó. – Tá afim de jogar Naruto? – ele perguntou, parecendo meio sem jeito, como que pedindo desculpas por não contar o segredo e nem quem era a garota. Eu sorri, levantando após colocar o Teorias debaixo do travesseiro.

− Bora! – eu disse enquanto corria escada abaixo, ouvindo Devon rir, a minha raiva já sumida. Não consigo ficar brava com alguém por muito tempo – por isso que a Thaíze ainda está viva – e perdôo facilmente... Mas não deixo ninguém pisar em mim! Só... Como se diz? Não fico estressando com pouca coisa.

Mas que ainda estou morrendo de raiva do Sammuel, isso estou.

− E agora... – eu disse misteriosamente, jogando com Naruto enquanto Devon usava Sai no jogo. Eu estava ganhando, faltava só um fiozinho de vida para que eu vencesse. E eu fiz questão de fazer isso com estilo! − ... Um Roundhouse Kick no meio da cara! – berrei, fazendo questão de usar um jutsu que gastava uma das marcações de Chakra. Acho que o Odama Rasengan. E eu sempre falo Roundhouse Kick quando dou o golpe final. Chuck Norris detona!

− Ah! Desisto! Você conhece todas as manhas de todos os personagens desse jogo! – Devon disse, deixando o joystick no chão e deitando no tapete. Sorri de um jeito como uma criança quando faz arte. Eu ganhei todas as rodadas – eu sempre ganho todas as rodadas. Bem, perdi uma porque Despertador apareceu correndo e me derrubou, dando a Devon a chance de me vencer. Até eu tirar o meu cachorro de cima de mim, a rodada já tinha acabado.

− Já que você cansou de perder... Acho que vou levar o Despertador pra passear e aproveitar e matar a saudade da cidade. – subi a escadaria para o meu quarto, pegar a corrente de Despertador e trocar de roupa, sem esperar uma resposta de Devon.

Coloquei um vestido amarelo-palha até os joelhos de regata, um par de rasteirinhas e uma blusinha sem mangas branca e de algodão com bolsos onde coloquei meu celular e minha carteira. Amarrei uma faixa como uma tiara para que meu cabelo não ficasse caindo na cara. Ok, mesmo com a faixa, meu cabelo ia ficar caindo na cara porque o vento de Vitória é o cão chupando manga que não perdoa ninguém. Mas coloquei a faixa mesmo assim.

Desci para a sala – onde Despertador ainda estava, já que Vovó não é cri-cri com ele como mamãe – com a corrente para prender na coleira do meu vira-lata. Ele ficou pulando com aquele jeito de bobo-alegre típico dele enquanto eu prendia a corrente na coleira.

− Se cuida. – vovó saia da cozinha, usando luvas amarelas sujas de ter-ra e um avental branco igualmente sujo – devia estar cuidando do jardinzinho nos fundos da casa. Ela me abraçou meio de longe, tomando cuidado de não encostar o que estava sujo em mim. – Tá levando o celular? – ela perguntou enquanto ia comigo até o portão, destrancá-lo. Vi de relance Devon colocar God of War no Play2.

− To, vó. – respondi, beijando o rosto de vovó. Acenei de costas para ela, enquanto Despertador me arrastava pela rua até que eu resolvesse correr ao lado dele. E eu corri. Ela legal competir com Despertador!

Talvez seja por isso que eu não engordo e continuo essa tábua... Ah, dane-se! A sensação de liberdade quando eu corria com Despertador, com o vento ricocheteando contra meu rosto, era impagável!


Já andara muito desde a periferia onde vovó mora. Afinal, já estava na praia do Camburi, depois dos prédios altões na praia do Canto e do píer onde tinha uma estátua de Iemanjá.

Andava tranquilamente pelo calçadão, ciclistas e pessoas praticando cooper passando por mim como se não me vissem – ou como se me ignorassem, tanto faz. Isso é bom. Não gosto de chamar atenção – mesmo que meus atos e roupas quase sempre chamem atenção. É um paradoxo, eu sei...

Virei numa rua que dava num shopping ali perto que eu não lembrava o nome. Era um lugar legal. Mas eu não fui até o shopping. Virei numa rua mais parada, antes de chegar no tal. O sol já estava se pondo, e o céu adquiria tons de laranja e violeta. Tinha que voltar logo para a casa de vovó... Pegaria um caminho por dentro, ao invés de usar as avenidas principais. Mais tranquilo, menos vento, menos gente, menos carro...

A rua estava calma, cheia de casas bem ajeitadas, lindas e encantado-ras com jardins frontais. Um contraste e tanto com os prédios da avenida ao lado...

De repente, Despertador parou de andar e olhou para uma casa muito bonita, térrea com um portão branco, o jardim cheio de roseiras cheinhas de botões, as paredes cobertas de pedras e algumas plantas trepadeiras. O portão menor estava escancarado. A porta da frente também.

Um vento frio passou, me fazendo ter calafrios. Algo não estava certo... Primeiro, porque o vento vinha de dentro da casa. Segundo, não sei dizer se era imaginação – provavelmente era – mas para mim era como se aquele vento trouxesse o cheiro da morte e do medo.

Fiquei paralisada, olhando para a casa com um estranho fascínio. Como se algo lá dentro me chamasse. Como se alguém pedisse ajuda.

Quando dei por mim, Despertador saíra correndo, entrando na casa. A corrente, ao sair violentamente da minha mão quando caí, feriu-me, um corte fino e longo enrolando por meu pulso, subindo pela palma da mão e terminando entre o polegar e o indicador. E quando caí, sendo arrastada na direção da casa, com metade do corpo dentro do terreno, arranhei os joelhos, um dos cotovelos e a bochecha. Doía pra burro! Despertador me paga!

− Ai... – murmurei quando apertei minha mão ferida com a outra, tentando parar o sangramento. Manquei para dentro da casa, pressionando minha mão contra o vestido. Estava manchando-o provavelmente para toda a vida, mas dane-se! Parar de sangrar era mais importante! – Despertador? – chamei, parando na porta. – Tem alguém aí?! – gritei. As janelas estavam fechadas, assim como as cortinas. As luzes estavam apagadas. Era difícil enxergar, só entrava um pouco de luz pela porta aberta. – O portão está aberto! – gritei de novo, e de novo sem resposta.

Dessa vez nem precisa de vento gelado, já to toda arrepiada de medo!

Entrei mais para dentro da casa. A casa fedia para mim. Fedia a morte e terror.

É coisa da sua cabeça, Stacy. Continue. Murmurei para mim mesma, o-lhando ao meu redor sem arriscar acender a luz.

Tinha um pano em cima de uma cômoda. Parecia vermelho. O peguei na intenção de amarrá-lo na minha mão machucada – eu lavaria o pano antes de sair se o sangramento tivesse parado – mas o soltei assim que peguei. Es-tava empapado de algo, e quando olhei a mão que o pegara, forçando os o-lhos, percebi que ela estava mais vermelha que antes. Outro arrepio percorreu minha coluna ao perceber que o pano estava empapado de sangue.

Alguém sangrara. E muito.

Engoli em seco e andei para uma porta que julguei que daria na cozinha, considerando que eu via azulejo branco do outro lado. Ouvi Despertador latir desesperadamente, como quando no dia que Tia Verônica foi atacada. Como eu não tinha ouvido-o latir antes?

Estranhei aquilo e, antes de correr o mais rápido que podia com meus joelhos ainda doloridos, hesitei, respirando fundo, meu coração se esmagando contra as costelas de tão rápido que batia.

Quando atravessei a porta, senti meu estômago embrulhar com o cheiro férrico que me atingiu. Era cheiro de sangue, de muito sangue, e percebi que o cheiro de morte e medo não era coisa da minha cabeça. Era real.

A família estava toda ali, na cozinha. Um casal que pareciam ser os pais, duas filhas gêmeas de uns quinze anos e o caçula, de no máximo dez anos. Suas gargantas estavam cortadas, e ainda haviam diversos cortes em seus corpos provocados por um mosaico colorido de vidro ao redor deles, como quando encontrei Tia Verônica. Era sangue demais!

E ver que as gêmeas tinham tentado pressionar o ferimento na garganta da outra, enquanto os pais o faziam com o caçula, fez lágrimas me chegarem aos olhos. Eu queria desviá-los e sair dali correndo, mas eu não conseguia. Como se parecesse errado ignorar a eles e à suas dores.

Um movimento atraiu meus olhos. Ele era pior do que o quadro macabro no chão da cozinha; senti isso em meus ossos. Era para aquela figura que Despertador latia.

Era muito alto. Uns dois metros, talvez mais. A pele quase transparente, sendo possível ver o vulto das veias, meio azulada, marcas negras em relevo como cicatrizes cobrindo todo o seu corpo – ao menos o que estava visível –, com a forma de símbolos que eram persa antigo, sumério, árabe e outro que eu não conhecia, sinuosos e cheios de traços, lembrando japonês ou chinês, mas com certeza não eram eles. Usava um manto longo e negro, manchado de sangue. A cabeça era rapada, e os olhos... Eu nunca vi olhos que assustavam tanto quanto os de mamãe quando estava com raiva. Eram de um azul, não elétrico, mas um azul estranho, como que a cor de ilusões e miragens, com a intenção de transmitir dor. Eu o chamaria de PeinEyes.

Aqueles olhos me provocaram dor. Como se fosse dor em minha alma. Senti-me paralisada, presa pelo seu olhar. Queria desesperadamente olhar para Despertador, alcançar algo que fizesse toda aquela dor que me deixava paralisada passar, mas eu não conseguia.

Ele andou uns dois passos apressados em minha direção. Eu não consegui nem pensar em tirar meus pés do chão, ainda presa no lago de dor que eram seus olhos. Despertador pulou na minha frente, latindo freneticamente, com o rabo se mexendo de um jeito quase felino. O PeinEyes olhou para Des-pertador, recuou um passo, e então me olhou de novo. Soltou um berro como o de um abutre que tem a refeição interrompida, virou-se e correu pela porta dos fundos.

E então, pude olhar para outras coisas, e fiquei surpresa e aliviada e desabei de joelhos no chão. Eu só estava viva por causa de Despertador. E ele agora lambia o arranhão em minha bochecha, sentado à minha frente.

Só então eu percebi que minha respiração estava descompassada, que meu coração batia tão forte em meu peito que estava quase saindo pela gar-ganta, que lágrimas rolavam livremente pelo meu rosto como válvula de escape para toda a dor que atormentara minha alma e que eu tremia da cabeça aos pés como se tivesse levado uma descarga de energia elétrica. Talvez eu tivesse levado de fato...

Respirei fundo, várias vezes, tentando me acalmar, levantando e andando até a pia, desviando dos corpos.

Eu tinha que ligar para a polícia.

Para a emergência.

Para minha vó.

Caramba, eu tinha que ligar pra alguém! Mas o que eu diria? Pensariam que eu estava louca se falasse a verdade. Talvez eu estivesse, e aquela era a gota d’água...

Lavei as mãos e os ferimentos. Lembrei da minha faixa de cabelo, e a amarrei na mão de forma tosca – sempre fui horrível para amarrar qualquer coisa, principalmente em mim mesma.

Apoiei-me contra a pia, tentando clarear a mente. Despertador estava sentado ao meu lado, me olhando, quase como se dissesse “Independente do que você decidir, eu estou com você até o fim.” Sorri para ele.

O que exatamente acontecera? Quem era aquele homem? Por que matou essas pessoas?

E então, eu ouvi vozes vindas do lado de fora. Duas, e uma me parecia familiar. Olhei para todos os lados desesperadamente e então, para o armário debaixo da pia. Parecia grande o bastante.

O abri e me encolhi ali – não sei como, talvez algum ancestral meu tenha sido contorcionista. Despertador entendeu quando olhei para ele, porque ele se encolheu junto comigo. Fechei as portas bem a tempo, deixando uma fresta pela qual entrava ar e eu podia observar quem tinha entrado.

O primeiro a entrar parecia ter uns catorze anos. A pele era morena, os olhos bicolores. O direito era cinza-tempestade como os de Sammuel, e o outro... Eu não sabia dizer que cor era. Era... Cor de nada. Ridículo, eu sei. E os cabelos eram na altura dos ombros, negros com mechas pratas. Usava um macacão jeans, uma camiseta preta e coturnos igualmente pretos. Ele espirrou, e tive a impressão de que ele ganhara mais uma mecha prata – ou eu já estava vendo coisas demais, vai saber... Olhou para tudo e assoviou.

− Ele fez a festa de novo... – o ouvi dizer, e então vi o outro entrar.

− A gente tem que pegar esse Djin logo, Eshe. Antes que um Gnomo Caçador resolva dar o ar de sua graça. – Era Sammuel. E parecia mais cansado do que nunca.


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