01 agosto 2011

Teorias de ConspiraçãoCapítulo 2: Presentinhos e Teorias de Noites Chatas

Sammuel verificou que seu material estava intacto e, depois, me ajudou a arrumar a bagunça do meu na mochila e no fichário, do melhor jeito possível para que não houvesse estragos com o que ficara intacto.

O sinal tocou, e poucos minutos depois, nós dois terminamos de arrumar a bagunça. Saímos da sala correndo para conseguir pegar o portão aberto. Odeio sair pela diretoria

Suspirei, aliviada, quando me vi na rua. Sammuel fez questão de me acompanhar no caminho para minha casa. Nada do que eu disse fê-lo mudar de idéia.


− Você ter me ajudado, tudo bem, mas você vai acabar com sua possível reputação no colégio se ficar andando comigo! Sou uma “aberração”, só minha vó, meu irmão e meu cachorro gostam de mim!

− Pode me adicionar à essa lista. Sua aparência não fala como você é. – ele respondeu, filosoficamente. Meu queixo amoleceu e eu tinha certeza que minhas pernas estavam bambas; mas, com uma força de vontade daquelas, consegui me manter de pé.

− Por que... Por que você se interessou por mim? – não resisti e perguntei quando estávamos na frente da Saraiva, parando de andar. Sammuel deu de ombros, me fazendo bufar levemente antes de recomeçarmos à andar.


Enfim, se você for normal, absolutamente nada de anormal ou estranho aconteceu enquanto íamos para minha casa. Agora, se você é uma aberração, como eu, tudo era fora dos padrões – ele foi muito educado, me olhava nos olhos, coisas assim que pessoas normais têm em conversas normais. E eu só presenciava coisas assim numa conversa com minha avó ou com meu irmão, no máximo. Achei mais estranho ainda seu sobrenome – Heavenlost. Será que ele é gringo? Quase não tem sotaque...

Ok, quem sou eu pra falar de sobrenomes em inglês... E não sou gringa.

Só meu pai e minha vó...

No meio do caminho, encontrei Devon indo para o colégio. Ele olhou para Sammuel, desconfiado, enquanto me abraçava. Apresentei-os rapidamente, e sabe de uma coisa... A impressão que tive é que os níveis de testosterona estavam aumentando em ambas as direções... E rapidamente, diga-se de passagem.

− Bem, Devon, é melhor você ir ou vai se atrasar pra aula! Sammuel, agradeço por ter me acompanhado até aqui, mas acho que você já desviou muito do seu caminho! – Sammuel sorriu pra mim, fez uma carranca para meu irmão e então virou para uma rua lateral.

Anotação mental para escrever no “Teorias de Conspiração”: mesmo eu sendo uma aberração, meu irmão tem ciúme de mim, e o Sammuel também. E eu acho que o Sammuel é um Elfo ou qualquer coisa parecida... Ele não pode existir! É perfeito demais pra ser humano!

Assim que Sammuel se afastou, Devon começou o interrogatório... Uma palavra: inesperado.

− Como assim, você desmaiou na primeira aula e ele que te levou pra enfermaria e ficou com você lá até a última aula?! Mocinha, o que você está me escondendo?... – ele fez uma cara de bravo que me fez ficar... Surpresa. Ele nunca fizera essa expressão pra mim... Para quem me xingava e mamãe, aquela era a expressão reservada, mas pra mim... Oh My God, o que está acontecendo?

− Vai com calma... Eu não sou como você, cheia de amigos. Fiquei sur-presa quando ele começou a conversar comigo. E qual o problema de ele ter me levado na enfermaria e ficado comigo? Duvido que um professor tenha a delicadeza de me levar na enfermaria. E eu não estou escondendo nada de você, mano. Aliás, eu já sou bem grandinha pra saber cuidar de mim mesma! – exclamei, ficando na ponta dos pés, fitando meu irmão nos olhos. Verde folha contra verde folha. Raios e trovões, um furação de folhas durante uma tempestade... Ok, viajei legal.

Devon apenas riu, daquele jeito maroto que eu estava acostumada, e então, senti minha face ficar rubra. Eu tinha caído numa de suas armadilhas – ele ama ficar fazendo essas pegadinhas. Quase sempre eu percebo, mas quando não percebo, detesto essa mania dele...

− Te peguei! – em seguida, apertou minhas bochechas como quando eu tinha dez anos – lembranças ruins, uma vez ele quase as arrancou; minhas bochechas ficaram doendo o resto do dia...

− Não gostei... – murmurei, desviando meu rosto de suas mãos. – Melhor você ir, vai chegar atrasado. – mal falei isso, ele ficou com uma expressão assustada, beijou rapidamente meu rosto e saiu correndo. Mania de família chegar atrasado à todo lugar, definitivamente...


Cheguei em casa era umas sete horas, talvez um pouco menos. Tia Verônica estava preparando o jantar, e quando ouviu o som da porta se fechando, veio da cozinha, enxugando as mãos num pano branco e velho que ela sempre carregava no bolso frontal do avental. Sorriu e me beijou no rosto.

− Como foi seu dia? – ela me perguntou, como sempre fazia. Ela gostava de mim, apesar de tudo – apesar de eu ser uma aberração – mas não olhava em meus olhos. Ouvi ela falando uma vez, há muito tempo, que não enten-de como alguém que não tem uma aparência normal consegue ter olhos tão belos, e justamente por não entender não olhava em meus olhos.

− Bem, desmaiei na primeira aula por causa de um aluno novo, muito lindo, que conversou comigo. Só fui acordar na última aula. – ergui os ombros em descaso, e então meu nariz captou o cheiro do famoso bolo de cenoura com cobertura de chocolate ao leite derretido misturado com creme de leite – não “senti” o cheiro, mas intui por vê-la fazendo o bolo antes de sair... Senti o cheiro mesmo do molho de macarrão à bolonhesa que estava sendo feito... Ai, que fome!

Tia Verônica olhou-me surpresa, e então deu de ombros – esse gesto é típico na minha família, assim como chegar atrasado à tudo quanto é lugar, mesmo quando não somos parentes de sangue...

− E o seu dia, Tia Verônica? – perguntei, acompanhando-a até a cozinha, deixando minha mochila na beira da escada para quando eu subisse. Ela sorriu-me enquanto abria a geladeira, mostrando o bolo ali, decorado como só ela fazia com um bolo comum. – Tia, não faz isso comigo! Estou MORRENDO de fome, e o jantar ainda vai demorar que eu sei! – cruzei os braços fazendo uma careta. Ela riu, pegando alguns tomates na gaveta da geladeira.

− Desculpe. Aliás, Stacy, que tal convidar o seu amigo pra vir jantar co-nosco um dia desses? – ela perguntou enquanto cortava o tomate para fazer o molho do macarrão que só ela e vovó sabiam fazer.

Senti minha face ficar vermelha feito o tomate que ela cortava, enquanto gaguejava.

− Me... Melhor não! Encontrei Devon no caminho, pouco antes do Sammuel começar a seguir pra própria casa, e a impressão é que os níveis de testosterona aumentaram drasticamente! – falei num fôlego só, e Tia Verônica riu muito. Ela ri demais, sabem... Talvez seja por isso que eu goste tanto dela.

− Tem razão! Seu irmão morre de ciúmes de você, e o seu pai então... É, melhor o seu amigo jantar em casa mesmo! Aliás, chegou isso pra você. – apontou para um envelope em cima da mesa, e então voltou totalmente sua atenção ao jantar, dando nossa conversa por encerrada.


Mal abri a porta de meu quarto, Despertador pulou em cima de mim, me derrubando e lambendo minha cara. Eu ri enquanto o empurrava levemente, buscando conseguir me levantar. Afinal, meu cachorro maluco entendeu que estava me sufocando e saiu de cima de mim.

Tranquei a porta por dentro, jogando minha mochila num canto e sentando na cama, analisando o envelope. Era de minha vó pelo que estava no remetente. Mas aquele envelope era estranho até. De um papel grosso, áspero e amarelado. As letras então, tipo aquelas letras de cartas do século retrasado, num traço fino e muito negro. Geralmente ela manda cartas mais normais...

Dei de ombros e abri o envelope. Se ela queria sair da normalidade... A carta estava num papel igualmente amarelado, mas com desenhos de flores vermelhas e folhas verdes na borda. Um belo papel de carta.


LeavesEyes, querida:

Como vai, Stacy? Espero que as coisas no colégio estejam melhorando! Estou com uma ótima sensação de que mudanças ocorrerão ou já ocorreram quando essa carta chegou.

Dessa vez você vem na semana dos jogos escolares pra cá, não é? Não me faça ter esperanças à toa, LeavesEyes!

E Devon, já arranjou uma namorada? Sinceramente, não sei o que meu neto tem na cabeça pra ignorar tantas jovens inteligentes que gostam dele... Preciso levar uma conversa séria com seu irmão, avise que ele não me escapa quando chegar! Ou melhor, não avise nada! Ele pode acabar inventando uma desculpa pra não vir.

As coisas ainda estão difíceis no colégio, imagino, mas não desista, querida. As coisas vão melhorar cedo ou tarde, tenha fé!

Bem, estou enviando desde já as passagens para você e Devon virem me ver e também a permissão de Despertador para vir com vocês. Vocês fazem o Check-in no aeroporto. Não falta nada!

Stacy, estou com saudade, de você e do seu irmão. Espero vocês.

Um abraço!

Vovó Eurídice.


Sorri quando terminei de ler a carta de vovó. Só ela mesma pra me animar num dia como esse.

Em seguida, fiquei pensando sobre toda a matéria que perdi devido ao desmaio e... Ah, que se dane! Cadê o Teorias? Tenho muita coisa pra escrever!


“Olá, querido diário.” Ainda me pergunto como tem garotas idiotas nesse mundo que escrevem assim! Coisa mais... Tosca, seria a palavra certa. Aff, começar a escrever como foi seu dia desse jeito me parece tão forçado...

Enfim, Teorias, e aí, beleza? Espero que você continue um segredo para todos que não sejam vovó! Afinal, como eu explicaria a mirabolante teoria de mamãe ser uma... Vampira? Que meu professor de Geometria é um Lobisomem? Que o santo vizinho da frente é um pedófilo?

Entonci, Teorias, tenho mais teorias saídas do forno pra você!

Hoje entrou um aluno novo na minha sala, Sammuel Heavenlost. Ele é, simplesmente, perfeito! E a patty Thaíze nem teve tempo de jogar sua lábia, encanto, charme, chame como quiser, pra cima dele! Uhu! Eu vou conseguir esse gato só pra mim – não sei como, mas vou! O passo de ser amiga dele já foi completado, e está mais do que óbvio que Devon está morrendo de ciúmes!

Aliás, sobre o Sammuel, acho que ele é perfeito demais... Desconfio que ele seja um... Elfo! Sim, um Elfo! Nunca passou uma teoria dessa pela minha cabeça! O mais perto é: Vovó Eurídice é uma Fada! Não me perguntem de on-de essa teoria em especial saiu, isso é segredo de estado!

Enfim, enfim... Acho que tem alguém – leia-se: algo – me perseguindo... Ora, o meu material escolar novo em folha não apareceria todo arrebentado sozinho, apareceria? Alguém – algo – está me perseguindo...

Ah, sim, sabe quando você está andando e acha que tem alguém te seguindo? Então, passei por isso quando meu caminho pra casa tornou-se solitá-rio... Devo estar ficando paranóica – mais do que já sou, obviamente...

Quando li a carta de vovó, sei lá, fiquei com uma sensação de que algo diferente, estranho, surreal, fantasioso, dentre outras coisas, iria acontecer co-migo... Coisa de gente doida sem nada na cabeça, provavelmente.


Parei de escrever quando ouvi um baque seco contra o vidro da porta-balcão que dá pra varanda. Um longo risco acabou por acompanhar o ponto que eu estava fazendo, devido ao meu susto.

Levantei-me, cautelosa. Despertador estava encolhido debaixo da minha cama, medroso como só ele era – de vez em quando, como quando mamãe surta e começa a gritar comigo ou com Devon por causa de alguma travessura. Fora isso, é um dos cachorros mais corajosos que existem.

Abri o vidro, de uma vez, a respiração suspensa. Na varanda do meu quarto, havia apenas um pacotinho daqueles de alianças, com um laço vermelho.

Abri o pacotinho, temerosa. E se fosse uma bomba?! OK, agora eu viajei demais... A bomba teria explodido quando bateu com o vidro.

Havia um par de brincos de esmeraldas em forma de folhas, que reluziam, lindas e encantadoras. Numa letra pequena e formosa num papelzinho, estava escrito “Use-os. Combinam com seus olhos”. Senti vertigem e então me sentei. Eu estava realmente passando mal. Tinha como esse dia ficar mais estranho?


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