28 julho 2011

Teorias de Conspiração - Capítulo 1: A Segunda-Feira Que Não Foi Chata

− Quanto é duas vezes sete? – enquanto todos faziam contas disfarçadamente, eu levantei a mão o mais alto que pude, querendo ser vista. A professora me ignorou e apontou pra um colega qualquer. Ele disse, atrapalhado, dez. Burro! É catorze.

− Catorze, professora! – eu gritei, ela me ignorou. E então, todos começaram a rir de mim.

E então, tudo girou.

Girou em cores berrantes, numa sopa enjoativa, minha cabeça girando junto, meu despertador lambendo minha cara...

Perái! Despertador lambendo minha cara?



Abri meus olhos verde-folha, encontrando Despertador, meu cachorro vira-lata de pêlo preto com manchas brancas ao redor dos olhos, lambendo minha bochecha. Ele tinha o tamanho aproximado de um São Bernardo, mas um corpo delgado e fino, com orelhas de pastor alemão, e estava deitado ao meu lado na cama. Eu o chamava de Despertador porque era isso que ele era. Ele sabia a hora exata em que eu devia acordar. Sorri para ele, afagando atrás de sua orelha. Olhei para a porta que dava pra varanda, aberta como sempre.

E então, a realidade me atingiu.

Era segunda-feira! NÃO! O QUE EU FIZ PRA MERECER ISSO?! Fim de semana é tão bom...

Levantei num salto olhando a hora no meu celular, respirando aliviada. Era cedo ainda, eu tinha muitas horas para me arrumar e tomar café antes de ir para o colégio. Tudo muito normal, a não ser que sou uma aberração, até mesmo para meus pais.

Sim, vocês não leram errado. Chamem-me Freak, Aberração, não importa, é o que eu sou. Apenas Despertador e minha vó não me consideram uma aberração.

Bem, em mim, apenas meus olhos verde-folha são normais. Meus cabelos são crespos e apontam para todos os lados, nem o milagre da chapinha doma minha juba vermelha com mechas que oscilam do laranja-escuro para o ruivo, naturalmente. É algo surreal o meu cabelo. Aberração versus normal: um à um. Minha pele é de um tom de oliva claro, quase branco, com algumas manchas mais escuras, completamente aberração. Dois à um. Sou alta demais, um falso porte de modelo, porque sou mais atrapalhada que sabe-se lá Deus o quê. Três à um. Minha boca normalmente é vermelho-vivo, mas tende a ficar próxima do preto quando meu humor muda drasticamente. Quatro à um. Ok, vocês não precisam de mais provas de que sou uma aberração. Mas aliem à isso eu ter um corpo de criança em alguém que, de acordo com calendários e afins, tem quinze anos. Definitivamente, aberração é algo que me descreve bem.

Calmamente, tomei um banho e vesti uma calça jeans preta, coturnos bege e uma camisa-túnica branca com uma discreta rosa aqui ou ali. Eu sei, eu tenho um senso de moda MUITO estranho, isso só aumenta minha bizarrice.

Fui para a varanda, Despertador me seguindo, feliz da vida. Coloquei comida em uma tigela e água fresca em outra. Sorri para meu cachorro grande e magro, que lambeu minha mão em agradecimento, começando a comer.

Voltei para meu quarto, arrumando minha mochila, verificando que eu ainda tinha mais ou menos quatro horas antes do sinal do colégio tocar e as aulas começarem. Enquanto saía do quarto, peguei meus enormes brincos cor de palha na cômoda do meu quarto. Minha mãe os odiava, mas eu amava. Era a única recordação da minha vó, Eurídice, nos tempos de aulas, o único humano no mundo para o qual eu não era uma aberração, e que me ama como Despertador me ama. Ela é meio estranha, mas não uma aberração ou bizarra. Ela é a mulher mais linda que eu conheço, aparentando ser bem mais nova do que é. O seu cabelo forma cachos perfeitos, da mesma coloração do meu estranho cabelo, inclusive as mechas de cores oscilantes, mas não estranho, bonito, isso sim. Os mesmos olhos verde-folha, a pele com um tom mais uniforme que o meu, mas o mesmo tom, sem as manchas. Lábios sempre vermelho-vivo. Um corpo invejável. E se vestia com maestria.

Eu a amava muito. Ela não dizia que eu era uma aberração, dizia que eu era diferente, especial, e que eu não devia mudar. Mas, então, ela mudou-se para Vitória, Espírito Santo. Suspirei, afastando velhas lembranças. Eu a veria nas férias de julho. Ou seja, daqui à duas semanas, no máximo!

Isso se ela não me mandasse as passagens tendo como data de embarque a semana dos Jogos Internos – e se fosse desse jeito, eu não reclamaria...

Desci as escadas lentamente, mas na metade delas, os braços fortes de meu irmão mais velho, Devon, me abraçaram pela cintura. Ele me chamava de aberração – eu era uma aberração – mas não se importava. Relação meio estranha, eu sei. Mas era a nossa relação. E eu gostava.

− Dormiu bem?! – ele me apertou contra seu peito forte, falando meu nome com a tonalidade que só ele conseguia.

− Sim, mano, e você? – ele me colocou no chão, sorrindo-me. Ele absolutamente não se importava em como eu era ou parecia, mas sempre que uns de seus amigos apareciam em casa e ele me abraçava e era todo carinhoso, eu tinha a sensação de voltar à Idade Média: só faltava eles arranjarem tochas, forcados e etc e começarem a correr atrás de mim pra me mandar pra forca ou estacas, ser queimada. Era o que eu sentia: a volta da caça às bruxas. Não os culpo.

− Muito bem, Freak! – era como ele me chamava às vezes, e eu ria. Não importava como ele me chamava, eu sabia que ele gostava de mim – ou não me trataria todo carinhoso sempre... Ele tinha cabelos negros e revoltos, os mesmos olhos verde-folha, a pele morena, um pouco maio alto que eu – e olha que eu sou alta pra burro! – com o corpo que era um pedaço de mau caminho. Ou melhor, Devon era um mau caminho inteiro, dos pés à cabeça, mas eu não me importava, ele era meu irmão! Se eu tivesse uma amiga – eu não tinha amigos ou amigas – com certeza eu estaria ajudando-a a conquistá-lo. Seu corpo forte e rápido garantira uma vaga no time de futebol do colégio nesse ano. Aliás, semana que vem são os Jogos Internos! Uhu! O único período em que ninguém me acha uma aberração! Também, ninguém me vê... É o único período em que “cabulo aula” – como se fosse ter aula – indo na lan house ficar jogando Ragnarok Online. Claro, só meu irmão e minha vó sabem.

Entramos na cozinha, rindo, e quando Devon sentou à mesa, brincou.

− LeavesEyes – era outro dos meus apelidos, um dos poucos carinhosos, com origem em meus olhos verde-folha. Era como vovó me chamava. – eu acho que senti um prenuncio de cintura quando te abracei... – ele disse com uma expressão pensativa, enquanto preparava um pão com queijo e presunto.

Levantei uma sobrancelha, servindo-me de suco de laranja e um pedaço de bolo. Devon em seguida começou a rir descontroladamente, eu acompanhando-o.

Verônica, a nossa empregada, simplesmente ria de nossas brincadeiras enquanto terminava de fazer a calda de chocolate para o bolo de cenoura que estava no forno. Ela nunca falou nada sobre eu ser uma aberração, acho que por ser amiga de vovó. Ela usa o cabelo loiro-areia em corte chanel, tem os olhos negros como a noite e a pele morena. Ela passa um pouquinho do meu cotovelo, e é a melhor cozinheira do mundo depois de vovó! Eu simplesmente amo a Verônica! Ela me conhece desde que eu nasci, o que provocou que eu a chamasse de Tia Verônica.

Mamãe então entrou pela porta, usando farda, impondo respeito com a pose da Sargento que é, acabando com os risos de todos. Ela se chama Diane, e é muito bonita, um pouco mais baixa que eu. Ela olhou feio para minhas roupas, mas não falou nada. Eu e Devon só agradecemos que não existe colégio militar aqui em São Paulo, ou já estaríamos lá.

Ah, sim, anotação mental: eu não posso me esquecer de colocar a camisa do colégio antes de sair, por cima da camisa-túnica.

Mamãe gostaria que eu fosse como Thaíze, a filha da vizinha e minha colega de sala: cabelo loiro e liso escorrido, olhos azuis e – eca! – patricinha. Ela bem que praticamente se joga nos braços do meu irmão, mas ele a ignora – irra, ele odeia loiras! A única loira que tem um lugar no coração dele é a Tia Verônica!

Minha mãe tem cabelos negros e lisos, olhos azul-elétrico e a pele branca, com algumas sardas no rosto. Ela é linda, mas me lembra a deusa Hera da mitologia grega: encantadora e familiar, mas de famílias perfeitas. Eu seria Hefesto versão feminina – ainda bem que a gente não mora no Olimpo pra ela me atirar de lá de cima! – e meu irmão, sei lá, talvez Ares – sim, ele é brigão!

Ignorei o olhar assassino de minha mãe quando peguei outro pedaço de bolo com as mãos, até que meu pai, Dwight – não, ele não é General! – entrou na cozinha, com seu sorriso tranquilizante. Cabelos em cachos com o mesmo estranho tom de vovó, olho verde-folha, a pele do mesmo oliva-claro, metido num paletó e camisa sem gravata com os primeiros botões abertos – ele é um charmoso professor de Arqueologia na UNIP. Papai seria Posêidon, vovó seria Gaia e Tia Verônica seria Hebe. Minha família não é normal, e se fosse, não teria graça.

Meu pai sentou à mesa, servindo-se de café e um pedaço do bolo de abacaxi, enquanto abria o jornal na área de quadrinhos. Ele AMA histórias em quadrinhos!

Foi quando, de repente, num furação de felicidade e loucura, Despertador entrou correndo na cozinha, mordeu a ponta da toalha e puxou com vontade. Todo o nosso café da manhã foi ao chão – e às nossas roupas, porém, por algum milagre, consegui empurrar a cadeira para trás, indo ao chão. Bati minha cabeça, mas pelo menos não me sujei. Engoli em seco, vendo Despertador abanar o rabo, feliz da vida; levantei-me, e então ergui meus olhos lentamente para olhar mamãe. Seus olhos azul-elétrico estavam... Estavam... Vovó, SOCORRO!

− Pro seu quarto, Stacy. E leve esse... Esse... Cachorro com você. E mais uma vez eu digo: esse cachorro não pode sair do seu quarto; você pode, no máximo, passear com ele na rua. – a voz de mamãe era fria. Suspirei, segurando Despertador pela coleira e arrastando-o para meu quarto. Mamãe chamara Despertador de cachorro porque não podia falar o que queria. Ela tinha uma rígida regra quanto à palavrões.

Enquanto isso, eu pensava comigo. Eu sabia que tinha que trancar a porta do meu quarto sempre que saía por causa de Despertador, mas, de alguma forma, ele conseguira sair. Enquanto segurava sua coleira com uma mão, levei a outra ao bolso traseiro da minha calça. A chave não estava ali. Arregalei os olhos, parando em frente ao meu quarto. A porta estava aberta, a chave do lado de fora. Eu trancara a porta, tinha certeza, e, mesmo que deixasse a chave na porta, quem teria aberto a porta?

Entrei, trancando a porta por dentro, fitando Despertador.

− Você sabe quem abriu a porta, não sabe? – meu cachorro inclinou a cabeça para um lado, a língua pendurada, como que compreendendo minhas palavras.

Ri para Despertador, pegando o meu “diário” que eu guardava debaixo do colchão. Na verdade, é um caderno que ganhei de vovó quando fiz seis anos. Eu chamo de Teorias de Conspiração – e é o que está na capa. Eu escrevo tudo o que se passa na minha cabeça nele, desde o meu vizinho da frente ser um pedófilo – estou com quase todas as provas para denunciá-lo, e sim, eu não tenho nada melhor pra fazer – até a minha mãe ser uma vampira – esse é impossível eu provar, nunca a peguei bebendo sangue... – e até mesmo que meu professor de geometria é um lobisomem! – ele nunca aparece pra dar aula quando a noite anterior era de lua cheia, e quando aparece, o rosto tá todo arranhado. Sim, eu sou pirada.

Fiquei escrevendo pirações no meu caderno; era o que eu fazia quando não tinha nada pra fazer, até que Despertador lambeu minha mão, avisando que era hora de eu ir para o colégio. Guardei “Teorias de Conspiração” embaixo do colchão e fui para o colégio depois de colocar a camiseta. Não sei por que, mas acho que vai acontecer alguma coisa hoje...


Entrei correndo na escola, quase que o portão fecha antes que eu entrasse! Ah sim, eu também tenho mania de me atrasar pra tudo... Fiquei namorando o livro do Percy Jackson na vitrine da Saraiva no caminho e esqueci do colégio.

Entrei feito uma louca na sala, correndo para o meu lugar no fundo da sala. Praticamente todo mundo já tinha chegado e, bem... Os olhares não foram amigáveis, isso eu garanto. Thaíze quase me matou com o ódio e a fúria que brigavam por espaço com a sedução em seu olhar. Não sei por que, ela sempre teve mais atenção que eu...

Arrumei minha mesa rapidamente: o estojo à direita, o fichário aberto, a mochila no chão, os livros embaixo da mesa. E, como sempre, ninguém sentou ao meu redor. Isolada para sempre! Uhu! Que besta...

A primeira aula é álgebra... Nem, o professor é tão chato... Talvez eu cochile durante...

Oh, minha Nossa Senhora das Causas Perdidas – não sei se tem uma, não sou muito religiosa, mas em todo o caso... – que Adônis é esse?! Não estou brincando, o garoto novo da minha sala é, realmente, um pedaço de mau caminho! Ou melhor, como o meu irmão, um mau caminho inteiro! Cabelo espetado e escuro, pele morena, bem como se ele fosse índio, olhos cinza-tempestade, maxilar quadrado, barba rala por fazer, alto – da altura de Devon – e um corpo que me lembrou o gato do Taylor Lautner... Será que ele ainda não me viu e dá tempo de fugir pela janela? Quem sabe amanhã eu apareço mais arrumada, com o vestido que meu irmão me deu de aniversário, maquiagem, algum jeito de domar meu cabelo...

Tive que abandonar a idéia de fugir pela janela quando ele sentou-se ao meu lado e me sorriu. Senti meu queixo amolecer, as pernas parecendo gelatina e o rosto avermelhado. Nunca alguém sentou do meu lado. Nunca alguém além do meu pai, do meu irmão, da Tia Verônica e da minha vó sorriu pra mim. Nunca. Senti uma onda de vertigem e então, tudo ficou preto...


− Stacy...

− Quem é? – perguntei, quando ouvi meu nome numa voz que eu não reconhecia.

− Stacy... – a voz parecia estar mais distante. – Stacy... – e então, ela estava tão distante que eu não a ouvia mais...


Acordei na “enfermaria” do colégio. É uma sala minúscula toda branca onde tem uma maca e uma escrivaninha com uma coisa ou outra e três cadeiras acolchoadas. Tentei me sentar na maca, mas senti um par de mãos fortes – que com certeza não pertencem à nossa enfermeira – segurarem meus ombros e que me fizeram voltar a deitar na maca. Abri melhor meus olhos embaçados e achei que fosse voltar a dormir. Ou qualquer que fosse o meu estado naquele momento. Olhando para mim, com as mãos em meus ombros, ninguém mais, ninguém menos, que o aluno novo super-gato com corpo de Taylor Lautner! Eu olhei nos seus olhos, o rosto provavelmente pior que um tomate, e me senti presa numa tempestade. Não me perguntem o tipo, eu estava num momento “extremamente abobalhada” para reparar em qualquer outra coisa que não seus lindos olhos cinza-tempestade...

− Enfermeira, ela acordou! – ouvi sua voz e agora devia até ter baba escorrendo da minha boca. A voz era grave, daquele tipo que toda garota gostaria que o namorado tivesse pra sussurrar “eu te amo” ao pé do ouvido. Bem... Eu gostaria.

Para minha infelicidade, a enfermeira entrou no meu campo de visão, empurrando o deus grego pra longe e me arrancando da tempestade onde eu estava.

Ela me fez um monte de perguntas – como eu estava me sentindo, se eu tinha tomado café, etc, etc, etc – antes de me deixar levantar da maca e sair da enfermaria. O garoto novo ficou lá o tempo todo, como que me vigiando. Estranhamente, seu olhar parecia intrigado. Vai entender...

Quando saí, ele me acompanhou. Olhei meu relógio e fiquei surpresa ao perceber que faltavam cinco minutos para o sinal tocar e a escola ficar vazia pela próxima hora antes do noturno chegar, o turno do meu irmão. Uau! Eu fiquei desmaiada o dia inteiro praticamente!

Quando chegamos no corredor da sala, o garoto colocou a mão em meu ombro, me fazendo parar e me sorriu.

− Não pude me apresentar... Meu nome é Sammuel. Quando você de repente caiu da cadeira na sala, só eu que me preocupei em te levar para a enfermaria... Aliás, qual o seu nome? – ele disse tudo aquilo de uma forma amável e sorrindo e eu até me senti estranha com alguém que não fosse meu irmão ou minha vó me falando tantas palavras com um sorriso amável. Como se tivesse algo errado.

− Típico, ninguém gosta de mim... Meu nome é Stacy. – eu sorri de volta, entrando na sala, que estava uma bagunça. Geometria, ontem foi noite de lua cheia e ele não veio... É, típico...

Andamos cada qual à própria mesa e... Posso me expressar? QUEM FOI O FILHO DA MÃE QUE RASGOU MINHAS FOLHAS E QUEBROU MINHAS CANETAS NOVAS?!

Eu olhei abismada para minha mesa. As folhas limpas e novas da Animal Planet rasgadas e jogadas pra todo o lado. Minhas canetas novas da Bic e da Faber Castell coloridas e brilhantes quebradas, a tinta das de gel manchando a mesa e as folhas rasgadas. Eu sempre soube que ninguém gostava de mim, mas daí me odiar à ponto de fazer isso com meu material?

Sammuel se colocou ao meu lado, olhando o estrago nas minhas coisas tão ou mais abismado que eu.

Que essa segunda não foi chata, isso é... Mas precisava ter tanta agitação assim? Que é que está acontecendo, será que alguém pode me explicar?


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